fs 3.0

a bagunça já carece de método.

Em nome d’El Rey

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Estive acompanhando, recentemente, um paciente internado no Hospital Português. Durante esse período, fez-se necessário o uso de uma vaga reservada para portadores de dificuldades de locomoção, mas não foi surpresa descobrir que não existe tal coisa nas dependências do Hospital.
Há referências do ano comemorativo do centicinquentenário, sabe-se lá se do Hospital ou da Real Sociedade de Beneficência Portuguesa da Bahia, sua mantenedora. 150 anos contra 24 da lei federal 7.426. O diploma, que determina a reserva de vagas para portadores de necessidades especiais em qualquer estabelecimento com acesso livre ao público, segue solenemente ignorado pela instituição. Há um par de vagas, sim, mas pertencem ao Centro Médico homônimo, ladeira abaixo, e rigorosamente nunca fiscalizadas.
Ver uma lei necessária descumprida é algo lamentavelmente comum em nossa terra. Um fato, contudo, deu-me uma nota extra de indignação, tomando forma de um batráquio que não sei se um dia seria capaz de engolir. Três cones, no pátio que dá acesso à emergência, guardam o que descobri ser a vaga do presidente da instituição. Ali eu vi o distinto senhor que não deve mesmo saber a importância da garantia legal, posto que seu cargo decerto lhe traz regalias, estacionar seu reluzente Audi A4. Ele pode. Não precisa, mas pode.
Em uma das manhãs que passei no Português, o estacionamento pago que eles ofereciam, além das sempre ocupadas vagas reservadas do Centro Médico, estava lotado. Fui obrigado a fazer a pessoa que transportava me aguardar enquanto encontrava uma vaga, no meio da rua, a mais de quinhentos metros de distância da portaria do Hospital. 24-150-500. A seqüência do desrespeito. Quem quiser conhecer de perto, que vá conferir. Com um pouco de sorte, encontrará o belíssimo Audi prata d’El Rey.

Escrito por fsnoboteco

06/05/2009 em 19:56

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Mutatis mutandis

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Cá estou, novamente.

Na verdade, eu ia mesmo era tirar esta página do ar.  Logo ela faria dezoito meses sem nenhuma novidade, e eu não tenho escrito nada. De quebra, meu provedor provocou brechas de segurança e fui listado como distribuidor de malware pelo Google. Cheguei a perder o gosto de ter isto aqui no ar.

Mas eu gosto do que é isto aqui e tenho apreço pelo que já me representou, um dia. Então, embora não acredite que valha pagar por um provedor para mantê-lo no ar, um dia talvez isso mude. Abri uma conta gratuita no WordPress.com, restaurei o backup aqui, redirecionei o domínio, e – voilà, estamos de volta.

Se eu voltar a produzir textos de forma que justifique o investimento, teremos servidor próprio novamente. Do contrário, por aqui ficamos.

.fs

Escrito por fsnoboteco

27/04/2009 em 17:10

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Noël

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Longa é a espera por uma noite que jaz entre umas trezentas e sessenta e outras cinco ou seis. Sem qualquer evento natural relevante, é de se indagar o porquê de ser uma data tão especial. Um pôr do sol anuncia a noite mais mítica do calendário ocidental e, por um momento, há quem pense que a próxima alvorada será mágica.

Durante um par de semanas, coisas que não se vêem durante todo um ano tomam forma. Pessoas se perdoam, abraçam, riem e comem juntas. O choro de um bebê anuncia a vida. O choro de quem fica denuncia o pesar. Reencontros. Excessos comemorativos e porres homéricos. A cara de bobos dos pais que vêem o filho rasgar o embrulho da bicicleta que lhes custou a noite para montar e embrulhar.

A felicidade estampada naqueles que comemoram seu primeiro ano juntos, tão presente nos que já somam décadas. O sorriso saudoso de quem já não faz essas contas. A saudade de quem não pôde vir e de quem não mais voltará. A vitória dos primeiros passos de um rebento, do reabilitado, do velho que aprende a bengala. A melancolia de sentir-se
esquecido e a alegria de ver-se lembrado, independente de viver em uma casa aconchegante, um asilo ou sob uma marquise.

Eventos que notamos todo fim de ano, todo Natal. Mas de que somos exemplo se esquecermos dessas coisas que ocorrem, tão vivas quanto, no resto do ano? Celebramos em um dia a vida de todo um ano, e isso deixa de ser belo se acharmos que essa vida dura só um dos 365 dias. Não se trata de celebrar um nascimento ou de dar presentes e enriquecer o comércio local. Celebramos a vida, uma vida que brota todos os dias sob diversas formas, desde um intenso beijo apaixonado a um singelo gesto de segurar a porta para alguém que vem logo atrás de si. E uma época onde lembramos eventos assim só pode, mesmo, ser muito especial. Faço votos de que tenhamos boníssimas lembranças e motivos para comemorar o natal. De 2008, para este já nos abastecemos.

Boas festas a todos.
Muita paz em 2008.

Escrito por fsnoboteco

24/12/2007 em 2:21

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Aquarela

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Bonita. Assim se sente quando termina de vestir seu rosto com nuances diversas, que variam conforme seu humor. Suas feições outrora de uma inocência juvenil são realçadas pelo cereja do batom e a sombra, sempre leve e elegante, nos olhos.
Pergunta-se, de novo. Por onde andará, como estará hoje, aquela sua velha conhecida dos tempos que já se foram? Especula, mas sabe que não adianta procurar, ela se foi com as areias do tempo. Ou acha que sabe. Mas não se indaga da diferença entre achar e saber.
A elegância em saber vestir o corpo é tão importante quanto saber vestir o rosto, e ela domina ambas artes muito bem. Sabe o que lhe cai bem e cai dentro de um belo vestido, de estampa sóbria, sim, mas sem parecer uma carpideira de velório.
Naqueles tempos, quando conviviam, a moda era outra. O diga sua linda saia rodada branca com bolas amarelas. Um tempo onde um tamanco de cor quente pedia uma pista de dança e um twist. Mas isso foi quando chapéu era moda, não para esconder raízes que teimam na cor branca dos anos.
Enfrenta o sol do fim da manhã, precisa comprar coisas pro jantar. Aniversário de casamento. Não sabe dirigir, mas, senhora de respeito, jamais senta no banco da frente do taxi. Conjectura sobre o que cozinhar, o vencedor termina sendo o bife enrolado, recheado com provolone. Detesta. Mas seu marido adora.
Quantos anos terá aquela moça, hoje? Seu aniversário foi há poucos dias, mas não consegue lembrar quantos anos faria. Recrimina-se por lembrar tanto de alguém que já nem mesmo faz parte de sua vida, e por fazê-lo em tão curto período, com tanta coisa para aviar. Ainda precisa voltar para casa a tempo de assar a carne. E receber o telefonema lamurioso de sua amiga mais próxima.
Ao crepúsculo, recebe seu marido com um sorriso no rosto lindamente decorado. Sentam à mesa. Ele elogia o vinho e o cheiro da comida, enquanto ignora que ela veste o vestido que ganhou dele pela manhã. Ela finge que gosta da carne e sorri, mais por ele que por ela própria.
Ouvem um pouco de Noel Rosa e vão dormir. Estão já cansados para dançar, como há dez anos, ao som de Pixinguinha. Foi como se conheceram, em um baile, ao som de um saxofone encantador. Outros tempos. O vestido branco e rosa deu lugar a outro, só branco. A jaqueta de couro à James Dean foi substituída por um inócuo terno preto. De abraçados, dormem de camisolão e pijamas.
Já deitada, lembrou-se. Esqueceu de lavar o rosto. Foi ao banheiro demaquilar-se. Sonolenta, mas com o mesmo critério com o qual veste o rosto todos os dias. Mais uma vez lembrou-se de sua velha conhecida. Ensaboando as bochechas, desdenhou de sua memória e levou o rosto à pia. Deitando a toalha no suporte, quis assustar-se, mas faltou-lhe o fôlego. Diante de si, perplexa, lhe fitava a versão madura daquela jovem que, há muito, desaparecera de sua vida.

Escrito por fsnoboteco

18/12/2007 em 1:47

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Pegadas na areia

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Nas extremidades fazem-se sentir os encurtamentos. Tendões são como cordas que nos dão movimento, numa marionete de nós mesmos. E é interessante como o organismo acompanha as perspectivas da psique, como somos capazes de projetar fisicamente aquilo, precisamente, que nossa mente espera encontrar. Assim, a tentativa obcecada de manter-se sempre no controle,no domínio das reações àquilo que chega, ao ponto de não se permitir viver e sentir o que não se pode controlar, retesa as cordas da marionete que é o corpo. E, do mesmo modo que uma criança não tem freios e tem um corpo serpenteadamente flexível, este adulto, inflexível com aquilo que lhe foge ao controle, tem seu corpo retesado e encurtado. É o modo de manter-se seguro, o modo de ter-se tão por perto quanto seja necessário para proteger-se. Proteger-se de sentir.
É como uma pérola criar, à sua volta, uma ostra velha e coberta de limo.Sabemos que o espinho que dói debaixo da unha vai deixar de ser um problema se removido, mas não pensamos nisso quando a unha é nossa. E quando um estímulo nos remete a uma lembrança, um cheiro, um som, a sinestesia apavora aquele rapaz que habituou-se a caminhar não na grama, mas no concreto. É quente, mas é sólido. Não cheira gostoso quando molha, mas é previsivelmente firme. Diferente da areia da praia, não tem o cheiro da brisa marinha, mas não vai afofar com sua pegada. Troca-se um bom momento pela segurança de não correr o risco de ter um mau momento. Que, omessa, sequer é certo de dar-se.
Felizmente, a natureza é sábia e o concreto racha. A terra só racha se houver nenhuma água e muito sol, mas cimento racha com água e sol, juntos. É curioso, porque a combinação que faz nascer uma flor bonita é a mesma que destrói o símbolo da solidez tão buscada. Mais, é de uma linda ironia.
Clarice Lispector, certa vez, pasmou-se da força das plantas que surgem por entre as brechas do concreto rachado de sol, e esse surgir tira a previsibilidade da coisinha cinza que fica escaldante sob o sol de meio dia. Leva embora sua segurança. Iguala-a à areia da praia na maré vazante. Não há mais segurança contra maus momentos. Não houve nenhum mau momento. Quanto tempo perdido.
Mas tempo não se perde, mesmo quando perdido. Nessas ocasiões, ele nos ensina, na sua perenidade, aquilo que não seria uma lição rápida. Às vezes, precisa ser demorado porque, num curto espaço, seria de uma dor intolerável, a verdade, a nos mostrar o quanto desperdiçamos nossas vidas tentando racionalizar uma gota de orvalho, quando, simplesmente, ela é bela. É bela. Ponto. Não há nada a dizer. Há a sentir. O homem, em seu afã evolutivo de tudo compreender, controla seus sentimentos e sentidos. Tolhe-os. Estraga uma das maiores belezas proporcionadas por seu corpo, a sinestesia das coisas
que vêm para serem tão-somente sentidas. E tudo isso para, depois de muito dormir em cama de pregos, dar-se conta de que há, sim, muito o que pensar. Mas há, também, o que sentir, e tais matérias não se mesclam entre si.
Então, o menino não gostava de andar na areia. Mas descobriu que bichos de pé acontecem e não estão à sua espreita, a beira-mar. Descobriu, também, que o sulco que deixa sua pegada não provém do peso de seu corpo, mas do peso de seus sonhos. E apercebeu-se de que, se tudo previsível fosse, um beijo de uma pessoa amada não traria nenhum frio na barriga. Ora, afinal, a areia parece-lhe convidativa. E o menino já não teme bichos de pé.

Escrito por fsnoboteco

11/12/2007 em 10:52

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Feijões mágicos

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Há uns dias, de novo, não escrevo. Não fujo de meus pensamentos, contudo. Não tenho escrito porque priorizo. Todo homem deve plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho, alguém célebre, que minha memória ofende, teria dito. Eu digo que faltou o surpreender uma bela dama e fazer dela companheira de uma vida. Eis a minha prioridade, cuidar dos preparativos e dela. Sim, porque minha árvore foi um pé de feijão mixo, mas a surpresa foi, sim, bem feita.

Escrever um livro não me custa, verdadeiramente. Na verdade, me veio dos céus a bênção de colocar bem as coisas em palavras. Ou maldição, já que há os momentos em que essas coisinhas feitas de letras de nada valem. É quando eu preciso de uma bússola, porque fico completamente perdido, sem o escudo de minhas metáforas quixotescas.

Mas faria um livro só com o brilho de seu olhar quando expõe sobre o que lhe apaixona ou o sorriso que causaria um desastre ecológico, fosse eu uma calota polar. Escrever sobre temas do coração é algo que carrega grande risco de ridículo, e ignorar o risco só prova a origem da inspiração. O fato é que o jardim que em vão pareci cuidar por tantos anos ora conhece a Primavera, sem que eu tenha parte nisso. Caso em 21 dias e caibo em meu terno, mas não em mim.

Ah, o filho… calma, calma. Practice makes perfection.

(este texto é para minha em-breve esposa. Amo-te, Nana.)

Escrito por fsnoboteco

07/08/2007 em 10:23

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12/6=2

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Hoje eu recebi um presente de uma pessoa mui, mui especial. Encabulou-me não ter palavras sendo um homem de palavras, mas tudo que pude fazer depois de ler as suas foi emudecer e lhe dar um sereno beijo. E publicar aqui, para que as pessoas aprendam a fazer conta direito.

Há cerca de dez meses atrás eu me apaixonei pelos escritos de um certo rapaz. Pelas palavras cheias de sensibilidade, repletas de sentimentos pulsantes, muitos dos quais eu partilhei… como muita gente um dia fez, faz, ou por certo virá a fazer…
Mas havia uma particularidade nesse rapaz que cativou em mim profunda afeição.. A sua lanterna suave e ao mesmo tempo incisiva e teimosa, tal qual a personalidade de seu dono. E logo nos primeiros dias ela passou a desenterrar segredos escuros, iluminar máscaras sombrias, afugentar um medo cego, medo de se deixar conhecer naquilo que há de mais verdadeiro em um ser humano.
Descobri que esse rapaz era escritor, fotógrafo e à época era também acadêmico do curso de Direito. Pasmem, o mesmo que eu continuo a cursar… Ironia? Coincidência talvez? Não. Artes de Clarice. Qual Clarice? Lispector, ora! Quem mais entendeu tão bem o que eu senti por tanto tempo? Ela soube antes de mim o que aquele escritor, hoje Bacharel em Direito, faria na minha vida.
Amanhã completo 22 anos. Ainda ontem conversávamos sobre o que havia acontecido em nossas vidas até então. Mas não é esta a razão das palavras que estou colocando aqui. Daqui a 4 dias, comemora-se uma data que costuma ser um tanto incômoda para quem não tem alguém para comemorar consigo. Não deveria ter tanta importância, mas esta se deve a nossa mania incurável de
demarcar datas para momentos especiais. E um dos textos que passaram por meus olhos era justamente sobre esta data. Havia certa tristeza no que estava escrito, e uma tímida esperança espiando pela frestinha de um coração de cavalheiro.
Apaixonei-me por este rapaz dias após o nosso primeiro e inesperado contato. Dois meses se passaram enquanto eu insistia – com a voz alegre e sábia de Clarice a sussurrar em meu ouvido: “Vale a pena! Acredite!” – em despertar naquele rapaz de sorriso grande e olhos profundos e inquietos, o mesmo que ele havia despertado em mim! E custou-me a acreditar como consegui. Mas
aconteceu de fato. Passamos um mês vivendo em um mundo novo, só nosso, cheio de sonhos e desejos que se realizavam numa velocidade que veio a ser preocupante. E que trouxe consigo a forte turbulência dos dois meses que se seguiram. Para estar com alguém é preciso se dispor a estar cada vez mais consigo, e custou algum sofrimento para que ambos pudéssemos perceber isso.
Um brusco rompimento de três semanas se fez necessário. Para que o sentimento que o sucedeu nascesse com a força de um grande amor, com a maturidade tranqüila da individualidade de cada um. Unidas por um companheirismo invulgar. As turbulências continuam a existir, mas o tempo foi excelente mestre em nos ensinar a contorná-las. E não só sei como desejo que
elas continuem a existir, para que jamais esqueçamos do que o que sentimos um pelo outro é capaz. Hoje a conta fecha, meu amor. Estes somos nós. Hoje 12/6 é igual a dois. E a essa altura já é totalmente desnecessário mas nunca excessivo dizer a todos os possíveis leitores deste escrito – dentre eles você, a quem eu o dedico – que eu o amo. Sem adjetivos, eu simplesmente amo
você, meu companheiro fascinante, Fernando Segura.
Sua pequena,
Nana

Escrito por fsnoboteco

08/06/2007 em 13:08

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280.000.000 segundos

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Há cinco meses, não escrevo mais textos livres. Já me cobram alguns, onde andam minhas novas palavras, mas a verdade é que não tenho escrito, mesmo. Não por faltar tempo. Não por sobrar olheiras. Na realidade, minhas olheiras se foram e, depois de formado, não tenho tido tão pouco tempo assim. Mas é fato, há cinco meses não escrevo nada novo. Ou, ao menos, há cinco meses, não publico.
Ocorre que desde Outubro passado, o sentimento dominante no que já escrevi fez as malas e foi-se embora para Pasárgada. Não é dizer que a minha pequena é culpada por eu não escrever, mas ela, direta ou indiretamente, é a causa primeira. Hoje nós completamos seis meses juntos, e ela me cobre de atenção e carinho. Eu tenho, hoje, tudo aquilo que, nas
entrelinhas daquelas palavras tristes, eu gritava sentir falta. Mesmo que tenha demorado a me dar conta disso.
Gostaria de publicar hoje algo muito grande, para mostrar o quanto lhe gosto, o quanto lhe amo. Mas, e essa é a outra causa, as palavras têm se tornado um tanto vãs. Sabe quando você sente vontade de expressar seu carinho por alguém, mas descobre que nenhuma palavra no dicionário é capaz de dar conta do trabalho satisfatoriamente? É bem por aí. Eu queria escrever uma das cartas bonitas que fiz pra ela nas primeiras semanas, mas aí eu lembro que falo bem três idiomas, mas sou incapaz de traduzir sentimentos realmente fortes em palavras.
…E me lembro do quanto ela critica os clichês, e o quanto acabo acorrentado a eles.
Percebi que os clichês dos que amam não podem ser chamados assim, porque são como chocolates. Todo mundo sabe que chocolate é doce, mas ninguém se atreve a chamar chocolate de doce. Chocolate é Chocolate. É mais ou menos a mesma coisa com os clichês dos amantes. Quem nunca experimentou dizer um “eu te amo” estando, de fato, amando, vai achar ridículo ouvir outro casal repetindo esse mantra. Valha-me Pessoa, eu  que não aprecio poesia. Valha-me, pois esta é uma carta de amor e, portanto, ridícula. Valha-me, pois eu amo e escrevo as minhas coisas ridículas. Para meu amor sorrir e para  quem nunca amou torcer o nariz. E eu rir do nariz torcido, pois este há de ser o sinal da cândida infelicidade de nunca ter tido para quem ligar ao raiar do dia e dizer “te amo.”
Esta carta é para a minha pequena, Nana. Hoje é vinte de Abril de 2007 e eu a amo.

Escrito por fsnoboteco

20/04/2007 em 10:08

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Uma lua

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É preciso ter olhos para ver o que a vida tem a nos oferecer, é preciso saber enxergar para não ficar, depois, a lamentar por ter perdido uma coisa que tanto pedimos e não a reconhecemos quando finalmente fomos atendidos.
Há pouco menos de três meses, depois de cansar de procurar aquilo que muito pedi durante quase duas décadas, fui encontrado. A despeito de seus esforços, relutei e relutei, tentando evitar o inevitável. Eu teria conseguido, em minha teimosia hispânica, não fosse a tenacidade e a certeza dessa pequena de olhos afiados, mas de um olhar sereno e sorridente.
Ironias da vida, eu fugia dela como pessoas que cortejei ao longo dos tempos fugiam de mim. E ela não desistiu, como eu demorei a desistir, também, naquelas ocasiões. Até que resolvi ceder ao que, de fato, mostrou-se inevitável. Rendido ao afeto que ela me oferece, cedi e calei a teimosia que me fazia correr daquilo que rezei tantas noites para receber. O carinho que eu ofereci durante anos e muitas vezes fora recusado por quem eu o nutria agora me fora oferecido. E eu, finalmente, resolvi ser lúcido e aceitar. E não consigo evitar o pensamento de como fui tolo de fugir disso por cinqüenta e cinco dias.
Castelos de areia são bonitos, mas a onda fatalmente os levará embora. Poemas de amor são lindos, mas não quando feitos às custas de lágrimas de rejeição daquela que os inspira. Agora, eu tiro fotos do pôr do sol e componho poemas em beijos demorados. Abraço uma pequena terna e serena vendo o mesmo Sol que já foi testemunha de minha tristeza se pôr. Só que agora ele é testemunha de uma felicidade que há muito eu esquecera.
Cá vão trinta dias. Na última sexta-feira completou-se a quarta semana desde que começamos o primeiro destes trinta dias, diante do mar e do céu avermelhado do crepúsculo. Trinta dias desde que uma mulher cuja estatura é proporcionalmente inversa a sua grandeza me tomou nos braços e fez os meus pensamentos inquietos silenciarem. Paz. Ora, há quanto tempo, como tem passado…? Eu não sabia o que era calar os pensamentos. Não lembrava o que era sentir saudade de alguém minutos depois de apartar-me dela. Olvidara o acordar com uma idéia fixa. E ora recobro tudo isso.
Meus textos freqüentemente falam deste tema de maneira triste. Houve uma ocasião em que disse buscar meu lar, o espaço entre dois braços onde me sentiria em casa. Em outra, fiz versos buscando quem enxergaria o que há por detrás de meus olhos. Eis que vejo duas coisas escritas em momentos de melancolia preenchidas, e num momento em que até as minhas sempre presentes olheiras tiraram férias.
Tenho escrito pouco, ultimamente, e minha pequena é responsável por isso, em grande parte. Não por haver me tomado tempo, mas por eu ter criado o hábito de escrever em momentos pouco alegres. Ocorre que se me escassearam estes momentos. Preciso recuperar a escrita nos bons momentos, e este texto é o primeiro destes que virão. É o que escrevo para dizer ao mundo que estou vivo, bem e feliz. Como há muito não estava. Como não quero mais deixar de estar.

Amo-te, Nana. E estas palavras, em público, são para que não reste dúvida disto.
Amo-te.

Escrito por fsnoboteco

20/11/2006 em 0:55

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A Primavera

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Ah, la vita è bella, veio a uma cabeça que acompanhava a cadência feminina de duas pernas. E o não acompanhar o movimento da cabeça deu ao corpo a certeza de que havia chegado a Primavera. Sentiu-se caminhando num jardim, por entre os sorrisos das flores, mesmo quando, em verdade, estava na calçada de uma avenida tão ruidosa quanto movimentada. Apenas digamos que a beleza pode provocar surdez, pois o ronco dos motores não atraía sua atenção.

Um passo apressado, sem contudo perder o equilíbrio que a mantinha nos saltos, provocava uma batida rápida e compassada como a dos corações que a viam passar diante de seus olhos incrédulos. Não tinha propriamente pressa, mas sentia-se consumida pelo andar frenético do tempo. Percebia-se notada, mas não achava tempo para uma massagem no ego, como a que faz a visão dos pescoços torcidos.

Revisando papéis à beira do rio de gente, ele observa a vista como quem espera um pássaro pousar para fotografá-lo. Inofensivo como o café fumegante em sua xícara, ele testemunha desde sorrisos de gente que atende a uma chamada de alguém querido até o displicente rebolado da gordinha que, agradando ou não, sabe-se notada.

Procurando uma mesa vaga entre tantas pessoas, ela começa a considerar adiar seu suco por falta de onde acomodar-se. Então, um maço de papéis abaixa e revela um olhar a oferecer-lhe a cadeira vaga diante da mesa. Ela, que não fala com estranhos, aceitou a oferta com um sorriso encabulado de quem viu seus pensamentos devassados.

Ele não pôde deixar de notar seus belos olhos amendoados em uma expressão aliviada de quem descansou os pés por um instante. Amaldiçoando sua agenda e o fato de ter pedido a conta, ele ficaria e tentaria saber mais. Não podendo, lamenta por deixar seu bilhete premiado sozinha no meio de tanta gente apressada demais para esperar o café esfriar.

Ela não esconde que aquela figura compenetrada de cabelos finos e curtos a interessava. Olhos debruçados no papel e, por vezes, nas pessoas, ele fingia uma calma agitada desde sua essência. Mal pôde disfarçar seu desapontamento em vê-lo levantar sem saber seu nome. Sem olhar para trás, ele anda apressado em direção ao seu destino ignorado. Voltando os olhos à mesa, ela nota um cartão com um número e uma frase elogiando seus olhos. Ela também achou os dele lindos.


Escrito por fsnoboteco

14/09/2006 em 22:39

Publicado em Contos, Crônicas