Contas
Passei hoje dentro do ônibus na avenida, na orla. Vi uma senhora sentada ao chão. Fazia contas sentada, absorta no seu papel e sua caneta. Não sei se fazia contas mesmo. Quiçá rabiscava algumas palavras, sabe-se lá. Me pareceu, embora nunca tenha vivido em situacão semelhante à que ela parecia estar, que mesmo na sua velhice maltratada e nas suas roupas por lavar, ela não dava importância a toda aquela tristeza que a ilh ava em meio aos outros estranhos na rua. Um obstáculo. Assim era ela vista pelos transeuntes, uma velha cansada sentada pernas estiradas e que rabiscava no seu papel. Pessoas tristes iam e vinham, formigas apressadas em busca de dinheiro para viver, sobreviver no mundo cruel, zumbis de passos longos que pulam dentro dos ônibus dos motoristas apressados. Estão lá. Será? Acho que a única pessoa que existia lá era a velha senhora que fazia contas ou rabiscos em seu papel. Sim. Ela era a única, em toda a miséria que rondava, que parava para talvez viver, invés de correr para ganhar a vida. Mesmo que só por instante breve. Ou talvez só descansasse as pernas.